A emoção é como um pássaro,
quando se prende já não canta

sábado, 30 de outubro de 2010

Tecendo o dia

Teci as rendas do dia
no frescor da madrugada i
teci e bordei... e juntei
as crisálidas luzidias
puxei os reposteiros da alvorada
abrindo o dia...e pus a mesa
a louça, porcelana delicada
as flores, os frutos , o pão, a ambrosia

pela janela entrava
o azul absurdo desse dia...

£una

Borboleta azul


Pequenina borboleta
azul no vento esvoaça:
um tremor de madrepérola
flameja, reluz e passa.
Num átimo, num piscar
de olhos, eu vi assim
flamejante e reluzente
a sorte passar por mim.

Hermann Hesse — Andares
Tradução de Geir Campos

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Fragmento

Tela de Helene Beland

Porque há lugares, meu Deus, que têm de ser mantidos.
E é preciso que tudo isto continue,
Quando já não for como agora,
Mas melhor.
É preciso que a vida do campo continue.
E a vinha e o trigo e a ceifa e a vindima. (...)


(Charles Péguy)

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Girassol

Em minha mão fechada cabe o dia,
o fogo aleatório dos instantes
e o silêncio que espalham os amantes
quando termina a festa e nada resta

da luz petrificada entre as montanhas.
Em minha mão aberta cabe a sombra
largada pela vida que me espera
além do inverno, quando a primavera

devolve ao caule a rosa fenecida
e o que foi volta a ser, e toda perda
retorna como um lucro imerecido.

A minha mão sustenta um girassol.
Sou sobra e o excesso, como o vento
ou como a luz incômoda do sol.

Lêdo Ivo

Ontologia do amor

Tela de Leon Comerre
Ontologia do Amor
Tua carne é a graça tenra dos pomares 
e abre-se teu ventre de uma a outra lua; 
de teus próprios seios descem dois luares 
e desse luar vestida é que ficas nua. 

Ânsia de voo em asas de ficar 
de ti mesma sou o mar e o fundo. 
Praia dos seres, quem te viajar 
só naufragando recupera o mundo. 

Ritmo de céu, por quem és pergunta 
de uma azul resposta que não trazes junta 
vitral de carne em catedral infinda. 

Ter-te amor é já rezar-te, prece 
de um imenso altar onde acontece 
quem no próprio corpo é céu ainda. 

Vítor Matos e Sá


Tecendo o dia

Tela de Richard Johnson

Teci as rendas do dia
no frescor da madrugada
teci e bordei... e juntei
as crisálidas luzidias
puxei os reposteiros da alvorada
abrindo o dia...e pus a mesa
a louça, porcelana delicada
as flores, os frutos , o pão, a ambrosia

pela janela entrava
o azul absurdo desse dia...

£una

Subia a lua, leve

Tela de Christa Kieffer


Subia a lua, leve

Um luar fluido e veludoso como um bálsamo
Ungia a noite voluptuosa e ardente.
A sua luz era tão branca que tornava o céu diáfano...
Subia a lua leve como o pensamento.

Eu dialogava com o silêncio... Uma toada rústica
De flautas e violões transportou-me à saudade.
E, abstrato de mim mesmo, eu te bendisse, ó música,
Que da tristeza de pensar me libertavas!


Da Costa e Silva

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Andorinha secreta

Tela de Christa Kieffer

Andorinha secreta de um verão,
que só nós dois sabemos, te revelas.
De que longínqua e solitária estrela
vieste iluminar-me o coração?

De que planeta ainda inominado?
De que mistério astral, corpo solar,
patagónia celeste, ignoto mar,
provém o teu perfil sereno e amado?

Daniel Filipe
 (poeta caboverdiano)

Compro um barco

Compro um
barco cheio de vento
com velas cor
do firmamento
e uma bússola que
aponte sempre
para as luas de saturno.
Compro um barco
que conheça
caminhos secretos de
mares desconhecidos.
Um barco feito de vento
onde caibam todos
os meus amigos.
Compro um barco
que saiba decifrar
os segredos escondido
no coração das
noites sem luar.

Roseana Murray

Poesia

Tela de Vladimir Volegov

Poesia é a visita do tempo
nos teus olhos, é o beijo do
mundo nas palavras por onde
passa o rio do teu nome; é a
secreta distância em que tocas
o princípio leve dos meus versos;
é o amor debruçado no silêncio
que te cerca e que te esconde:
como num bosque, lento,
ouvimos o coração de uma
fonte não sei onde... 

Vítor Matos e Sá

A Bela de Amherst



A Bela de Amherst

Ela varre com vassouras multicores
E sai espalhando fiapos,
Ó Dona arrumadeira do crepúsculo,
Volta atrás e espana os lagos:

Deixaste cair novelo de púrpura,
E acolá um fio de âmbar,
Agora, vejam, alastras todo o leste
Com estes trapos de esmeralda!

Inda a brandir vassouras coloridas,
Inda a esvoaçar aventais,
Até que as piaçabas viram estrelas —
E eu me vou, não olho mais.

Emily Dickinson

É primavera agora

Tela de Leon Comerre

O campo despe a veste de estamenha; 
Não há árvore nenhuma que não tenha 
O coração aberto, todo em flor!

Ah! Deixa-te vogar, calmo, ao sabor 
Da vida...não há bem que nos não venha 
Dum mal que o nosso orgulho em vão desdenha!

Também despi meu triste burel pardo, 
E agora cheiro a rosmaninho e a nardo 
E ando agora tonta, à tua espera...

Pus rosas cor-de-rosa em meus cabelos... 
Parecem um rosal! Vem desprênde-los! 
Meu Amor, meu Amor, é Primavera!...


Alice Ruiz

Pequena elegia de setembro


Não sei como vieste, 
mas deve haver um caminho 
para regressar da morte. 
Estás sentada no jardim, 
as mãos no regaço cheias de doçura, 
os olhos pousados nas últimas rosas 
dos grandes e calmos dias de setembro. 

Que música escutas tão atentamente 
que não dás por mim? 
Que bosque, ou rio, ou mar? 
Ou é dentro de ti 
que tudo canta ainda? 

Queria falar contigo, 
dizer-te apenas que estou aqui, 
mas tenho medo, 
medo que toda a música cesse 
e tu não possas mais olhar as rosas. 
Medo de quebrar o fio 
com que teces os dias sem memória. 

Com que palavras 
ou beijos ou lágrimas 
se acordam os mortos sem os ferir, 
sem os trazer a esta espuma negra 
onde corpos e corpos se repetem, 
parcimoniosamente, no meio de sombras? 

Deixa-te estar assim, 
ó cheia de doçura, 
sentada, olhando as rosas, 
e tão alheia 
que nem dás por mim. 

Eugénio de Andrade

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Sê paciente, espera


Sê paciente; espera
que a palavra amadureça
e se desprenda como um fruto
ao passar o vento que a mereça.

Hoje roubei todas as rosas dos jardins

Hoje roubei todas as rosas dos jardins
e cheguei ao pé de ti de mãos vazias.

À breve, azul cantilena

À breve, azul cantilena
dos teus olhos quando anoitecem.

Vê como o verão

Vê como o verão
subitamente
se faz água no teu peito,

e a noite se faz barco,
e minha mão marinheiro


Eugénio de Andrade
TELA DE CHILDE HASSAM


Pequena elegia chamada domingo



O domingo era uma coisa pequena.
Uma coisa tão pequena
que cabia inteirinha nos teus olhos.
Nas tuas mãos
estavam os montes e os rios
e as nuvens.
Mas as rosas,
as rosas estavam na tua boca.

Hoje os montes e os rios
e as nuvens
não vêm nas tuas mãos.
(Se ao menos elas viessem
sem montes e sem nuvens
e sem rios ...)
O domingo está apenas nos meus olhos
e é grande.
Os montes estão distantes e ocultam
os rios e as nuvens
e as rosas.


Eugenio de Andrade (1923 - 2005)
"As Mãos e os Frutos"

Tu és a esperança

Tela de Richard Jonhson

Tu és a esperança, a madrugada.
Nasceste nas tardes de setembro,
quando a luz é perfeita e mais dourada,
e há uma fonte crescendo no silêncio
da boca mais sombria e mais fechada.

Para ti criei palavras sem sentido,
inventei brumas, lagos densos,
e deixei no ar braços suspensos
ao encontro da luz que anda contigo.

Tu és a esperança onde deponho
meus versos que não podem ser mais nada.
Esperança minha, onde meus olhos bebem,
fundo, como quem bebe a madrugada.



Eugénio de Andrade 
In As mãos e os frutos 




Folhas breves

Tela de Helene Beland

Somos folhas breves onde dormem
aves de sombra e solidão.
Somos só folhas e o seu rumor.
Inseguros, incapazes de ser flor,
até a brisa nos perturba e faz tremer.
Por isso a cada gesto que fazemos
cada ave se transforma noutro ser.



Eugénio de Andrade

Poema VIII

Tela de Maria Boohtiyarova

Foi para ti que criei as rosas.
Foi para ti que lhes dei perfume.
Para ti rasguei ribeiros
e dei às romãs a cor do lume.

Foi para ti que pus no céu a lua
e o verde mais verde nos pinhais.
Foi para ti que deitei no chão
um corpo aberto como os animais.

Eugénio de Andrade 

Aprendizagem

aprendizagem da poesia

Durou muitos anos, aquele verão.
Crescíamos sem pressa com o trigo
e as abelhas. Com o sol
corríamos para a àgua, à noite
num verso de Shakespeare ou
na nossa boca uma estrela dançava.
Aprendíamos a amar, aprendíamos
a morrer. A todos os sentidos
pedíamos para escutar o rumor,
não do mundo, que ninguém abarca,
apenas da brancura de uma folha
e outra folha ainda de papel. 


Eugénio de Andrade 

Cerejeiras em flor

Cerejeira em flor



Acordar, ser na manhã de Abril
a brancura desta cerejeira;
arder das folhas à raiz,
dar versos ou florir desta maneira.

Abrir os braços, acolher nos ramos
o vento, a luz, ou o quer que seja;
sentir o tempo, fibra a fibra,
a tecer o coração de uma cereja.



Eugénio de Andrade


sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Minha mãe ensinou

Tela de 

Maria Boohtiyarova





"Para tal minha mãe me aqueceu
e me chamava para casa antes do breu
e induzia a noite da infância a ficar quieta
e me dava fortes cereais na minha dieta
e às oito em ponto me fazia deitar
e prendia meus cabelos, sem me permitir engordar
e vigiava meu sentar, minha postura
para eu me tornar uma mulher madura
e ouvir um assobio e perder a razão
e fazer caquinhos do meu coração". 

Dorothy Parker

Diário

Sempre estremeço ante a poesia. A amendoeira, os pássaros,
o bosquezinho onde você está, as flores que você não vê,
a janela aberta sobre a qual eu me debruço e sonho que você
está encostado em meu ombro, as vezes em que sua fotografia
parece triste. Mas quero escrever, sobretudo eu quero escrever
uma espécie de longa elegia para você. Talvez não em poesia.
Nem em prosa, talvez. Quase com certeza num tipo de prosa
especial. E, por fim, quero manter caderno de notas para
ser publicado algum dia. Só isso. Nem novelas, nem histórias
de problemas, nada que não seja simples e transparente.



Katherine Mansfield
(Diário - 22.01.1916)

Duas flautas

Uma noite em que eu respirava o perfume das flores
à beira do rio,
o vento trouxe-me a canção de uma flauta distante.
Para responder-lhe, cortei um ramo de salgueiro
e a canção da minha flauta embalou a noite encantada.

Desde então, todos os dias,
à hora em que o campo adormece,
os pássaros ouvem a conversa
de dois pássaros desconhecidos,
cuja linguagem, no entanto, compreendem.

Li Po, poeta chinês 

Não te preocupes

Não...não te procupes vestido
amanhã, quando o sol quente voltar ao céu
e todas as nuvens te quiserem de volta
os dois pregadores no varal vão te salvar...


Rita Apoema

Romance sonâmbulo

Verde que te quero verde.
Verde vento. Verdes ramas.
O barco vai sobre o mar
e o cavalo na montanha.
Com a sombra pela cintura
ela sonha na varanda,
verde carne, tranças verdes,
com olhos de fria prata.
Verde que te quero verde.
Por sob a lua gitana,
as coisas estão mirando-a
e ela não pode mirá-las.

Verde que te quero verde.
Grandes estrelas de escarcha
nascem com o peixe de sombra
que rasga o caminho da alva.
A figueira raspa o vento
a lixá-lo com as ramas,
e o monte, gato selvagem,
eriça as piteiras ásperas.

Mas quem virá? E por onde?...

Federico Garcia Lorca 

Sôbre as estrelas

Sobre as estrelas
Deitada na grama,
o céu empoeirado de estrelas.
Passei o dedo e - curioso –
algumas vieram grudadas na ponta.
Olhei para cima e assoprei.
Foi tanta estrela caindo
que agora eu mal consigo enxergar
de tanta esperança.

Rita Apoena

Dame la mano


Dame la mano y danzaremos;
dame la mano y me amarás.
Como una sola flor seremos,
como una flor, y nada más...

El mismo verso cantaremos,
al mismo paso bailarás.
Como una espiga ondularemos,
como una espiga, y nada más.

Te llamas Rosa y yo Esperanza;
pero tu nombre olvidarás,
porque seremos una danza
en la colina, y nada más...

Gabriela Mistral

Tu vinhas


Tela de Helene Beland 
Mas tu nunca vinhas com a noite –
E eu sentada com casaco de estrelas.
… Quando batiam à minha porta
Era o meu próprio coração.
Agora pendurado em todas as ombreiras,
Também na tua porta;
Entre touros rosa-de-fogo a extinguir-se
No castanho da grinalda.
Tingi-te o céu cor de amora
Com o sangue do meu coração.
Mas tu nunca vinhas com a noite
… E eu de pé com sapatos dourados

.

Else lasker-Schüler

Bonequinha de louça



Tua figura suave
delicada
nem parece que vive, parece bordada,
- como a boneca de seda de um desenho
de uma antiga almofada
que eu tenho...

Teus gestos, teus embaraços
fazem lembrar finos traços
de uma filigrana,
e tão frágeis me parecem, tuas mãos, teus braços,
que nem sei se és de carne ou se és de porcelana...

Bonequinha de louça
linda moça,
tua alma é um fio de seda, estou bem certo,
e a minha imaginação
criou para o teu destino uma lenda encantada:

- jura que tu fugiste de algum livro
e que eras a ilustração
de uma história de fada !



 Poema de JG de Araujo Jorge  

Para ti


Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que falhei
o sabor do sempre

Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só olhar
amando de uma só vida."

MIA COUTO
Tela de Richard Johnson


Outonal

OUTONAL

Caem as folhas mortas sobre o lago;
Na penumbra outonal,não sei quem tece
As rendas do silêncio...Olha,anoitece!
- Brumas longíquas do País do Vago...

Veludos a ondear...Mistério mago...
Encantamento...A hora que não esquece,
A luz que a pouco e pouco desfalece,
Que lança em mim a bênção dum afago...

Outono dos crepúsculo doirados,
De púrpuras, damascos e brocados!
- Vestes a terra inteira de esplendor!

Outono das tardinhas silenciosas,
Das magníficas noites voluptuosas
Em que eu soluço a delirar de amor...

FLORBELA ESPANCA,

Tela de Edward Cucuel

Dizem que é verão


Deixa que seja uma criança
a inclinar a tarde.

Dizem que é verão: não acredites.

O verão tem os pés iluminados pela lua,
o verão tem os nomes todos do mar,
não é o deserto
da cama aberta ao frio, 
o prazer imitando a neve.

O que se vê daqui não é a dança
da claridade com o trigo,
o rio onde os cavalos bebem 
a tarde a chegar ao fim.

Deixa que seja uma criança....

Eugénio de Andrade

Tela de Vladimir Volegov

Se tu viesses ver-me


Se tu viesses ver-me...

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços...

Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca... o eco dos teus passos...
O teu riso de fonte... os teus abraços...
Os teus beijos... a tua mão na minha...

Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri

E é como um cravo ao sol a minha boca...
Quando os olhos se me cerram de desejo...
E os meus braços se estendem para ti...

Florbela Espanca
Tela de A.Belonog

 

Primavera

Primavera

Despertam docemente as brisas.
Sopram serenas, noite e dia,
por toda a parte a sussurrar.
Aroma tenro, nova melodia.
Agora, pobre coração, reanima-te:
Agora tudo, tudo mudará.

Faz-se o mundo mais belo cada dia.
Se o momento presente é tão feliz
o amanhã que surpresas não trará!
Floresce ao longe o vale mais sombrio.
Agora, pobre coração, esquece a mágoa
Agora, tudo, tudo mudará.

Johann Ludwig Uhland 

Fragmento



"...Da lua ela não tinha receio porque
era mais lunar que solar e via de olhos
bem abertos nas madrugadas tão escuras
a lua no céu.
Então ela se banhava nos raios lunares...
E ficava profundamente límpida."

(Clarice Lispector)

Nevoeiro

Hoje tua ausencia desceu sobre os telhados
como um nevoeiro fora da estação
denso e perturbador.

A mata se fechou nos seus queixumes 
e pássaro algum ousou atravessar 
a minha agonia silenciosa.
Nem a lua ociosa cintilou sobre os outeiros.

Ao longe, apenas o vento vem me contar que choras
que choras como eu, nossos sonhos esfacelados..
perdidos entre as estrelas e a as areias....


£una

Canção do sonho errante



Canção do meu sonho errante

Eu tenho a alma errante
e vago na terra a sonhar maravilhas...

Não para um momento!
Eu busco irriquieto o meu sonho inconstante
e sou como as asas, as velas, as quilhas,
as nuvens, o vento...

Eu sou como as coisas inquietas: o veio
que canta na leira; a fumaça que voa
na espira que sobe das achas; o anseio
dos longos coqueiros esguios;
a esteira de prata que deixa uma proa
no espelho dos rios.

Eu tenho a alma errante...

Boêmio, o meu sonho procura a carícia
fugace, procura
a glória mendaz e preclara.
Sou como a veia fenícia
ao largo, uma vela distante...

Eu tenho a alma errante...

E sinto uma estranha delícia
em tudo que passa e não dura,
em tudo que foge e não pára...

Menotti Del Picchia

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Futilidades

FUTILIDADES

Fútil é esse céu
tão bordado de estrelas
luzindo e piscando
na noite gelada..
sem ninguém para vê-las...
e essa lua emproada
toda nua brilhando
na madrugada.
Inútil
essa paisagem
de tom verde-escuro;
a cerca viva de flores
explodindo de cores,
por sobre o muro...
se estás na cidade
tão longa a distancia
e tão grande a saudade!!!

£UNA

Retrato ao luar

Nunca tive os olhos tão claros
e o sorriso em tanta loucura.
Sinto-me toda igual às arvores:
solitária, perfeita e pura.

Aqui estão meus olhos nas flores,
meus braços ao longo dos ramos:
e, no vago rumor das fontes,
uma voz de amor que sonhamos.

Cecília Meireles
-

(tela de Helene Beland)

Ilusão

Sobre o mar de safira o céu de opala.

Uma vela perdida no horizonte
E o azul que foge cada vez mais longe ...

Ilusão de min’alma!


Da Costa e Silva

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Noturno


Noturno


Meu pensamento em febre
é uma lâmpada acesa
a incendiar a noite.


Meus desejos irrequietos,
à hora em que não há socorro,


dançam livres como libélulas
em redor do fogo.

Henriqueta Lisboa

Máscaras


 MASCARAS

As belas, as perfeitas máscaras de perfil severo
Que a morte, no silêncio, esculpe,
Encheram-se de uma estranha claridade...
Que anjos tocam, através do mundo e das estrelas,
Através dos sensíveis rumores,
O canto grave dos violoncelos profundos?
Alma perdida, vagabunda, Messalina sonâmbula,
insaciada...

Que procuras na noite morta, Alma transviada,
Com tuas mãos vazias e tristes?
Cantam os violoncelos... A noite sobe como um
balão...

Meus olhos vão ficando cada vez mais lúcidos...
Soluçam os violoncelos... Ah,
Como é gelado o teu lábio,
Pura estrela da manhã!


Mario Quintana;
in Aprendiz de Feiticeiro

Despedidas

despedidas
Começo a olhar as coisas
como quem, se despedindo, se surpreende
com a singularidade
que cada coisa tem
de ser e estar.

Um beija-flor no entardecer desta montanha
a meio metro de mim, tão íntimo,
essas flores às quatro horas da tarde, tão cúmplices,
a umidade da grama na sola dos pés, as estrelas

Nada mais é gratuito, tudo é ritual.
Começo a amar as coisas
com o desprendimento que só têm
os que amando tudo o que perderam
já não mentem.


Affonso Romano de Sant'Anna

Memórias

Vagam minhas memórias, soltas
nos caminhos ,a desfrutar do vento
e ao desfolhar das árvores
cansadas... derreadas sobre os muros
de tijolos carcomidos.
vagam minhas memórias
alheias ao passante inexpressivo
e ao pássaro aturdido em busca
do ninho perdido.
Memórias que vagueiam, onde andará
em que viela antiga, em qual esquina
em que sítio batido de luar
o amor que um dia perdi
e vivo a procurar...

£UNA

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Mis libros

Mis Libros
son barriles sin fondo
de aventuras.
Son mares infinitos
de sabiduría.
Son cielos repletos de nubes
de fantasía.
Son mis almas gemelas.
Pueden abandonarme mis amigos,
ignorarme mi familia
el mundo entero podría darme la espalda,
pero
los que siempre estarán ahí
los que siempre me han hecho reír,
llorar o soñar por igual
los que por ningún motivo me dejarán sola:
Mis libros

Xaydé Esquivel Flores

domingo, 17 de outubro de 2010

Expectativas

O vento anda ficando mentiroso.
Prometeu trazer você, não trouxe.
Ficou de dizer o porquê, não disse.
Esperou que eu me distraísse,
passou depressa, rumo ao horizonte.
Já não tem importância
que cometa outra vez,
um ato de inconstância..
Aprendi a esperar...
Se ventos são capazes de levar embora,
a qualquer hora, também,
são capazes de fazer voltar.


Flora Figueiredo

Como nascem as manhãs


 O fundo dos olhos da noite
guarda silêncios.
Esconde na retina
a menina que corre descalça em campo aberto.
Pálpebras cerradas, a noite emudece.
A menina com medo
faz um furo no escuro com a ponta do dedo.
Cai um pingo de luz.
Amanhece.

Flora Figueiredo 

O Paraiso


Assopre o pensamento triste, 
Deixe escorrer a última lágrima, conte até vinte. 
Abra então a janela,
aquela que dá para o vôo dos pardais, 
Procure a luz que pisca lá na frente
(evite as sombras que ficaram lá para trás). 
Ao encontrá-la, coloque-a dentro do peito, 
De tal jeito, que possa ser notada do lado de fora; 
Acrescente agora uma pitada de poesia, 
Do tipo que passa por nós todos os dias,
e nem sequer consegue ser notada; 
Aumente o brilho, com toda a intensidade
de que um sorriso é capaz. 
A felicidade é o seu limite, 
E o paraíso é você mesma quem faz. 

Flora Figueiredo

Se eu tivesse

Se eu tivesse dedos de fada,
Bordaria estrelas no jardim...
Que fossem macias e estofadas,
Para que, descalço, você andasse sobre elas,
Como quem pisa em canteiros de cetim.


Se eu tivesse dedos de fada,
Desenharia flores pelo teto,
Que fossem azuis e perfumadas,
Para que os anjos, devidamente seduzidos,
Dissessem Amém aos seus sonhos preferidos...

Flora Figueiredo.

sábado, 16 de outubro de 2010

A sombra de um salgueiro


Fugi das chaminés.
do fumo, que era um denso nevoeiro.
e procurei, na beira dum regato.
a sombra de um salgueiro.

O silêncio, era música do céu;
o ar parado, absorto,
mas na água tranquila
vogava um peixe morto.

Fernanda de Castro