A emoção é como um pássaro,
quando se prende já não canta
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sexta-feira, 15 de julho de 2011

Que dizer

Tela de Vicente Romero Redondo
Para além desta porta não há nada
e esta escada
pára de súbito no ar.
E que dizer da janela
também ela 
que já não dá para o mar?
Nada diremos, nada.
Na memória arruinada
só persiste o apelo:
reter nas mãos o momento,
bebê-lo até ao fim, bebê-lo lento,
no esplêndido ondular do teu cabELO

TORQUATO DA LUZ

Quantas vezes

Tela de Vicente Romero Redondo
Quantas vezes te esperei neste lugar,
quantas vezes pensei que não chegavas,
quantas vezes senti a rebentar
o coração, se ao longe te avistava.

Quantas vezes depois de teres chegado
nos colámos no beijo que tardava,
quantas vezes, trementes e calados,
nos entregámos logo sem palavras.

Quantas vezes te quis e te inventei,
quantas vezes morri e já não sei

TORQUATO DA LUZ

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Tudo passa


Passam novos e velhos, passa gente
das mais diversas cores e feitios.
Passam corpos fantásticos, esguios,
e outros que apenas seguem na corrente.
Passam carros, comboios e navios
de longo curso e com destino urgente.
Passam aves traçando o transparente
voo por cima dos montes e dos rios.
Passam horas, minutos e segundos
nos relógios de todos os futuros
à espera do advento de outros mundos.
E passam nuvens branqueando o céu,
alheias a tristezas e a muros,
pois tudo passa e hei-de passar eu.

 TORQUATO DA LUZ

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

À tua espera


Ainda um dia hei-de contar-te as espantosas
coisas de que me lembro quando fico à tua espera
horas e horas, cada vez mais vagarosas,
e tu não chegas, meu amor, e tu demoras
mais do que a minha paciência. Quem me dera
aquele tempo em que era sempre primavera
e assistia indiferente à passagem das horas.

Mas, quando chegas, só me ocorre esquecer tudo
e ter-te uma vez mais como quem tem o mundo.


Torquato da Luz

Mais nada

Nestes dias chuvosos, quando a tua
lembrança vem bater-me na vidraça,
recuso-me de todo a ver quem passa
e procuro nem sequer olhar a rua.

E pela noite dentro, quando a lua
é um pássaro triste que esvoaça
sobre a última árvore da praça,
onde um fantasma sempre se insinua,

reinvento-te e, à luz da madrugada,
concluo que, além de ti, não há mais nada.


Torquato da Luz

Solidão

Hei-de lembrar-te ainda, quando o vento
tiver varrido as folhas da memória
e nada mais couber na nossa história
de amor do que o direito ao esquecimento.

Hei-de lembrar-te ainda, quando a dor
das horas em que não estive contigo
tiver passado, exorcizando o perigo
de me render a outra dor maior.

Hei-de lembrar-te ainda, quando não
souber mais quem tu eras, solidão.


Torquato da Luz

A vida inteira

Quando a manhã chegar e tu voltares
com o intenso cheiro a maresia
que usas deixar em todos os lugares
por onde passas, pura poesia
ou perdida lembrança dos olhares
que surpresos trocámos algum dia,

vou apertar-te ao peito de maneira
que fiques a meu lado a vida inteira. 



Torquato da Luz