A emoção é como um pássaro,
quando se prende já não canta
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quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Peço licença

Tela de Meadow Gist


Agora, se querem, podem ir.
Vivi tanto que um dia
terão de por força me esquecer,
apagando-me do quadro-negro
meu coração foi interminável.

Porém, porque peço silêncio
não creiam que vou morrer
passa comigo o contrário
sucede que vou viver.

Sucede que sou e que sigo.

Não será, pois lá bem dentro
de mim crescerão cereais,
primeiro os grãos que rompem
a terra para ver a luz,
porém a mãe terra é escura
e dentro de mim sou escuro
sou como um poço em cujas águas
a noite deixa suas estrelas
e segue sozinha pelo campo.

Sucede que tanto vivi
que quero viver outro tanto.
Nunca me senti tão sonoro.
nunca tive tantos beijos.
Agora, como sempre, é cedo.
Voa a luz com suas abelhas.
Me deixem só com o dia
Peço licença para nascer.

Pablo Neruda

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Se cada dia cai

Se cada dia cai, dentro de cada noite,
há um poço
onde a claridade está presa.

há que sentar-se na beira
do poço da sombra
e pescar luz caída
com paciência.

PABLO NERUDA

sábado, 16 de abril de 2011

Tela de Ariana Richards
É HOJE:todo o ontem foi caindo
entre dedos de luz e olhos de sonho,
amanhã chegará como passos verdes:
ninguém detem o rio da aurora.

Ninguém detém o rio de tuas mãos,
os olhos de teu sonho,bem-amada,
és tremor do tempo que transcorre
entre luz vertical e sol sombrio,

e o céu fechar sobre ti suas asas
levando-te e trazendo-te a meus braços
com pontual,misteriosa cortesia:

por isso canto ao dia e à lua,
ao mar,ao tempo,a todos os planetas,
a tua voz diurna e a tua pele noturna.


=PABLO NERUDA

domingo, 27 de março de 2011

Lunarossa

"Mentem os que disseram que eu perdi a lua,
os que profetizaram meu porvir de areia,
asseveraram tantas coisas com línguas frias:
quiseram proibir a flor do universo.

"Já não cantará mais o âmbar insurgente
da sereia, não tem senão povo."
E mastigaram seus incessantes papéis
patrocinando para minha guitarra o esquecimento.

Eu lhes lancei aos olhos as lanças deslumbrantes
de nosso amor cravando teu coração e o meu,
eu reclamei o jasmim que deixavam tuas pegadas

Eu me perdi de noite sem luz sob tuas pálpebras
e quando me envolveu a claridade
nasci de novo, dono de minha própria treva."

Pablo Neruda

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Estrelas

Tela de Kosntantin Rasumov

Quando no céu as estrelas
deixam o firmamento
e vão a dormir de dia,
as estrelas da água acolhem
o céu enterrado no mar
inaugurando os deveres
do novo céu submarino.

Pablo Neruda

Das estrelas que admirei

Tela de Washington Maguetas


Das estrelas que admirei,
molhadas por rios e rocios diferentes,
eu não escolhi senão a que eu amava
e desde então durmo com a noite.

Pablo Neruda




Quero fazer contigo o que a primavera...

Tela de Washington Maguetas

Quando não te doeu acostumar-te a mim,
à minha alma solitária e selvagem,
a meu nome que todo afugentam.
Tantas vezes vimos arder o luzeiro
nos beijando os olhos e sobre nossas cabeças
destorcer-se os crepúsculos em girantes abanos.
Sobre ti minhas palavras choveram carícias.
Desde faz tempo amei teu corpo de nácar ensolarado.
Chego a te crer a dona do universo.
Te trarei das montanhas flores alegres,
copihues, avelãs escuras, e cestas silvestres de beijos.
Quero fazer contigo o que a primavera faz com as cerejas.

Pablo Neruda

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011


Também este crepúsculo nós perdemos.
Ninguém nos viu hoje à tarde de mãos dadas
enquanto a noite azul caía sobre o mundo.

Olhei da minha janela
a festa do poente nas encostas ao longe.

Às vezes como uma moeda
acendia-se um pedaço de sol nas minhas mãos.

Eu recordava-te com a alma apertada
por essa tristeza que tu me conheces.

Onde estavas então?
Entre que gente?
Dizendo que palavras?
Porque vem até mim todo o amor de repente
quando me sinto triste, e te sinto tão longe? 

Pablo Neruda

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Recordarás

Recordarás aquela quebrada caprichosa
onde os aromas palpitantes subiram,
de quando em quando um pássaro vestido
com água e lentidão: traje de inverno.

Recordarás os dons da terra:
irascível fragância, barro de ouro,
ervas do mato, loucas raízes,
sortílegos espinhos como espadas.

Recordarás o ramo que trouxeste,
ramo de sombra e água com silêncio,
ramo como uma pedra com espuma.

E auqela vez foi como nunca e sempre:
vamos ali onde não se espera nada
e achamos tudo o que está esperando."


Pablo Neruda

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

En primavera

Todo ha florecido en estos campos,
manzanos, azules titubeantes,
malezas amarillas, y entre la hierba verde
viven las amapolas.
El cielo inextinguible,
el aire nuevo de cada día,
el tácito fulgor,
regalo de una extensa primavera...

Pablo Neruda

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Meu jardim

"Vivo para florescer outros jardins e sem perceber
o meu se abarrota de rosas e manacás 
Vivo cada dia como se fosse cada dia. 
Nem o último nem o primeiro - o único". 

PABLO NERUDA

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Teu riso



"Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas não
me tires o teu riso.

Não me tires a rosa,
a lança que desfolhas,
a água que de súbito
brota da tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.

A minha luta é dura e regresso
com os olhos cansados
às vezes por ver
que a terra não muda,
mas ao entrar teu riso
sobe ao céu a procurar-me
e abre-me todas
as portas da vida.



Pablo Neruda

Teu riso





"Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas não
me tires o teu riso.

Não me tires a rosa,
a lança que desfolhas,
a água que de súbito
brota da tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.

A minha luta é dura e regresso
com os olhos cansados
às vezes por ver
que a terra não muda,
mas ao entrar teu riso
sobe ao céu a procurar-me
e abre-me todas
as portas da vida.



Pablo Neruda

Pela noite


Pela noite entraremos para roubar 
Um ramo florido. 
Ainda não se foi o inverno, 
E a macieira aparece 
Convertida, de súbito, 
Em cascata de estrelas perfumadas. 
Pela noite entraremos 
Até chegar ao firmamento trêmulo, 
E tuas mãos pequenas como as minhas 
Roubarão as estrelas. 
E sigilosamente 
À nossa casa, 
Pela noite e na sombra, 
Entrará com teus passos 
O silencioso passo do perfume 
E com pés entrelaçados 
O corpo claro desta primavera.“


Pablo Neruda

.

Das estrelas


Das estrelas que admirei,
molhadas por rios e rocios diferentes,
eu não escolhi senão a que eu amava
e desde então durmo com a noite.


(Pablo Neruda)

.

Rosas


"Vivo para florescer outros jardins e sem perceber
o meu se abarrota de rosas e manacás 
Vivo cada dia como se fosse cada dia. 
Nem o último nem o primeiro - o único". 


Pablo Neruda 

.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Um canto dormido



Dentro da minha vida vou guardando o meu sonho
em chuviscos sutis de amor e de veneno.

O abismo me fecunda e se desfaz o encanto,
com a Dor permaneço dolorido pensando.

(Era um canto dormido
em seda triste e branda,
adormeceu no estéril desencontro dos ventos
e a vida, estilhaçada como árvore deserta,
ficou.)

Oh! como doem, doem essas dores humildes.

Pablo Neruda

.