A emoção é como um pássaro,
quando se prende já não canta
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quarta-feira, 11 de maio de 2011

viver em pleno vento


Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei
.
Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso
.
Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo
.
Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento.
*
.
Sophia de Mello Breyner Andresen

domingo, 3 de abril de 2011

Meio da vida


Porque as manhãs são rápidas e o seu sol quebrado
Porque o meio-dia
Em seu despido fulgor rodeia a terra

A casa compõe uma por uma as suas sombras
A casa prepara a tarde
Frutos e canções se multiplicam
Nua e aguda
A doçura da vida

Sophia de Mello Andresen

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Dia Branco

Tela de Maxfield Parrich

Dai-me um dia branco,
um mar de beladona
Um movimento
Inteiro, unido, adormecido
Como um só momento.
Eu quero caminhar como quem dorme
Entre países sem nome que flutuam.
Imagens tão mudas
Que ao olhá-las me pareça
Que fechei os olhos.
Um dia em que se possa não saber.

Sophia de Mello Andresen

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

É por ti

Tela de leon Comerre


É por ti que se enfeita e se consome,
Desgrenhada e florida, a Primavera
É por ti que a noite chama e espera
És tu quem anuncia o poente nas estradas.
E o vento torcendo as árvores desfolhadas
Canta e grita que tu vais chegar.!!!!

Sophia de Mello Andresen

Quem és tu?

Quem és tu que assim vens pela noite adiante, 
Pisando o luar branco dos caminhos, 
Sob o rumor das folhas inspiradas? 

A perfeição nasce do eco dos teus passos, 
E a tua presença acorda a plenitude 
A que as coisas tinham sido destinadas. 

A história da noite é o gesto dos teus braços, 
O ardor do vento a tua juventude, 
E o teu andar é a beleza das estradas.

Sophia de Mello Andresen

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Sacode as nuvens

Sacode as nuvens que te poisam nos cabelos,
Sacode as aves que te levam o olhar.
Sacode os sonhos mais pesados do que as pedras.

Porque eu cheguei e é tempo de me veres,
Mesmo que os meus gestos te trespassem
De solidão e tu caias em poeira,
Mesmo que a minha voz queime o ar que respiras
E os teus olhos nunca mais possam olhar.


Sophia de Mello Breyner

domingo, 28 de novembro de 2010

Oh dias de hoje

Ó dia de hoje, ó dia de horas claras
Florindo nas ondas, cantando nas florestas,
No teu ar brilham transparentes festas
E o fantasma das maravilhas raras
Visita, uma por uma, as tuas horas
Em que há por vezes súbitas demoras
Plenas como as pausas dum vento.

Ó dia de hoje, ó dia de horas leves
Bailando na doçura
E na amargura
De serem perfeitas e de serem breves.

Sophia de Mello Breyner Andresen

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Aqui antigamente

Alguém diz:
"Aqui antigamente houve roseiras."
Então as horas
Afastam-se estrangeiras,
Como se o tempo fosse feito
de demoras.
 
Sophia de Mello B. Andresen

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Dai-me Senhor

Senhor, dai-me a inocência dos animais 
para que eu possa beber nesta manhã
a harmonia e a força das coisas naturais.

Apagai a máscara vazia e vã
de humanidade
apagai a vaidade,
para que eu me perca e me dissolva
na perfeição da manhã
e para que o vento me devolva
a parte de mim que vive
à beira dum jardim que só eu tive.

Sophia de Mello Breyner Andresen

domingo, 10 de outubro de 2010

Naquele tempo


Naquele Tempo
Sob o caramachão de glicínia lilaz
As abelhas e eu
Tontas de perfume
Lá no alto as abelhas
Doiradas e pequenas
Não se ocupavam de mim
Iam de flor em flor
E cá em baixo eu
Sentada no banco de azulejos
Entre penumbra e luz
Flor e perfume
Tão ávida como as abelhas

Sophia de Mello Andresen

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Nunca mais


Nunca mais te darei o tempo puro
Que em dias demorados eu teci
Pois o tempo já não regressa a ti
E assim eu não regresso e não procuro
O deus que sem esperança te pedi.


Sophia de Mello Andresen

Quem como eu...


Quem como eu em silêncio tece
Bailados, jardins e harmonias?
Quem como eu se perde e se dispersa
Nas coisas e nos dias?

Sophia de Mello Andresen
.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

As rosas

Quando à noite desfolho e trinco as rosas
É como se prendesse entre os meus dentes
Todo o luar das noites transparentes,
Todo o fulgor das tardes luminosas,
O vento bailador das primaveras,
A doçura amarga dos poentes,
E a exaltação de todas as esperas."

Sophia de Mello Andressen