A emoção é como um pássaro,
quando se prende já não canta
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quinta-feira, 19 de maio de 2011

Hora de se pensar em voz alta
no terraço das trepadeiras.
A claridade quase morta
esmalta
os vidros da janela e borda
de fios de ouro o leque das palmeiras.

Hora em que não há mais distâncias; hora
em que a primeira estrela vem ouvir na sombra
o canto verde da primeira rã;
em que cada palavra tomba
e se desenrola
silenciosa como um novelo de lã.

Guilherme de Almeida

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Cuidado

Ó namorados que passais, sonhando, 
quando bóia, no céu, a lua cheia! 
Que andais traçando corações na areia
e corações nos peitos apagando! 

Desperta os ninhos vosso passo... E quando
pelas bocas em flor o amor chilreia, 
nem sei se é o vosso beijo que gorjeia, 
se são as aves que se estão beijando... 

Mais cuidado! Não vá vossa alegria
afligir tanta gente que seria
feliz sem nunca ouvir nem nunca ver! 

Poupai a ingenuidade delicada
dos que amaram sem nunca dizer nada, 
dos que foram amados sem saber! 


Guilherme de Almeida

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Essa que eu hei de amar


Essa que eu hei de amar perdidamente um dia
será tão loura, e clara, e vagarosa, e bela,
que eu pensarei que é o sol que vem, pela janela,
trazer luz e calor a essa alma escura e fria.

E quando ela passar, tudo o que eu não sentia
da vida há de acordar no coração, que vela…
E ela irá como o sol, e eu irei atrás dela
como sombra feliz… — Tudo isso eu me dizia,

quando alguém me chamou. Olhei: um vulto louro,
e claro, e vagaroso, e belo, na luz de ouro
do poente, me dizia adeus, como um sol triste…

E falou-me de longe: "Eu passei a teu lado,
mas ias tão perdido em teu sonho dourado,
meu pobre sonhador, que nem sequer me viste!"

Guilherme de Almeida