A emoção é como um pássaro,
quando se prende já não canta
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quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Meninas no verão

Tela de Diane Leonard
Meninas em trajes de verão
vêm e vão como a brisa,
envoltas em perfumes de flores
e sorrisos que salvam vidas.

Passam em tecidos tão finos
que mal chegam a tocar a pele
e se movem por entre a gente
como se dançassem nas ondas.

Álvaro Bastos

domingo, 23 de outubro de 2011

Beija-flor



 Beija-flor, de canto mudo,
quanto de sua ligeireza
É seiva compartilhada?
Quanto de sua delicadeza
É essência de flor esvoejada?
O melhor néctar é aquele
Que se rouba apressado?
A vida é para ser sorvida
Por um fino canudinho ?
O que levas para o teu ninho?
Suor de rosas, saliva de jasmim,
Um beijo de glicose perolada

Alvaro Bastos

Luz do mar

Richard Jonhson
Luz do mar que a minha estrela guia
Crista de espuma que faz da prata lua
Escamas de pérola a saltar em água viva.

Meu amor é a sereia que a proa aponta
A bússola dos sonhos a nortear o sul
A gaivota que o cesto da gávea acolhe.

O que sou é o deslizar entre o ar e água
o flutuar sobre o abismo de azul marinho
a contemplar os brilhos infinitos do céu.

Alvaro Bastos

Uma casa em meio às árvores

Romel De La Torre
Queria fazer com minhas mãos
uma casa em meio às árvores,
que desse boas vindas ao sol
e ao mesmo tempo abrigasse
amigos, flores e passarinhos.
Uma casa de paredes brancas,
telhas da cor de seus cabelos.
Uma casa para te encontrar,
onde escrever sobre nós dois.
Com janelas sempre abertas,
para deixar o vento trazer
o aroma de flores do campo.
Uma casa com espaço para
as esperanças e joaninhas.
Um lugar no meio do mundo
tendo o amor como endereço.

Alvaro Bastos

O que chamo vida...



A cor da argila no telhado,
a agitação da folha na palmeira,
o som de uma pedra que 
é atirada num pequeno lago.
Meu mundo tem poucos
endereços, mas a paisagem 
é infinita e sempre muda,
dependendo do sol e da lua,
e do meu jeito de olhar
o interior do que chamo vida.

Alvaro Bastos

sábado, 15 de outubro de 2011

Janelas de sonho




Os diamantes nascem
em noites de lua cheia,
numa combinação de luz
e pequenos pontos do infinito.
São os brilhos da escuridão,
lágrimas de cristal eterno,
pequenas janelas de sonho
que levam teus olhos às estrelas.

Álvaro Bastos

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Coisas de gato

Histórias de gatos

Gosto de ouvir histórias de gatos. Quanto mais autista o gato, melhor. Autista no sentido de apegado à sua própria concepção de realidade. Gatos que se escondem atrás da cortina, sem ligar se o rabo ficou de fora. Ou que ficam debaixo da cama o dia inteiro, no esconderijo de sempre, que nem é mais esconderijo, uma vez que só falta bater o ponto, de tanto que o lugar faz parte de sua rotina.
Gosto também dos gatos com TOC, transtorno obsessivo compulsivo. Aqueles que só andam na quina das mesas, que fazem seu ninho numa cadeira quebrada ou em cima de um eletrodoméstico sem uso. Gatos que andam diferente, adeptos dos silly walks dos Monty Pythons. De algum modo, eles sabem que estão sendo observados, mesmo que não tenha mais ninguém no mesmo cômodo.
Gatos me lembram de como eu deveria ter sido, se tivesse me concentrado mais em mim, em vez de abrir mão do meu jeito de ser para agradar os outros. Não me entendam mal: a gente deve fazer concessões, sim, se elas forem em benefício de quem a gente ama. Mas não podemos ceder nas pequenas coisas, nas pequenas manias inofensivas que são o nosso jeito de estar no mundo.

ÁLVARO BASTOS

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Para Ághata

Agora que tenho uma neta, já sei quem vai ver as flores cor de rosa das paineiras quando eu já não estiver por aqui. E quem vai reparar nos pares de flores roxas e brancas das quaresmeiras. Talvez alguém diga à Ágatha que o avô dela amava esse tipo de coisa intensamente. Talvez ela ria quando alguém disser que seu avô gostava da algaravia das maritacas, que cortam o céu azul  em busca de não sei o quê. E que gostava do chilreado dos pardais nos beirais das casas.
Se tiver um bico doce, Ágatha vai se deliciar com as frutas, todas as frutas, que seu avô saboreava com avidez, herança de um tempo em que elas eram o beijo roubado da meninice. Se eu ainda estiver por aqui, vou sugerir que ela comece pela melancia e que continue com a doçura absoluta da fruta do conde.
Minha neta vai descobrir suas próprias leituras e músicas, mas desconfio que ela vai gostar das histórias de mares distantes, planetas de harmonia e anjos que perdoam qualquer peraltice. Mais tarde, espero que ela descubra que é bem melhor sair de casa quando se leva na mochila um pouco de poesia. Aos poucos, ela vai fazer o roteiro de seus passeios favoritos na cidade de seus sonhos, aproveitar a companhia da lua e das estrelas e se sentir segura ao saber que o sol, que cobriu de dourado a maior parte da vida do seu avô, vai voltar e que é bom estar por aqui para receber seu calor e brilho.
ALVARO BASTOS

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Tua voz

Tela de Pino Daeni
Tua voz tem o encanto 
de mil borboletas azuis,
traçando bordados no ar.
Tua voz me fala de coisas
que o vento esqueceu,
segredos de primaveras,
cantigas de ninar sereias,
frases que murmuramos
quando nos faz falta o mar.

Alvaro Bastos


sábado, 25 de dezembro de 2010

Borboletas brancas

Como posso dizer que voam
as borboletas de traje branco
que saltitam na primavera?

Dão laços na cor do vento
e são alegres como quem tem
mil gotas de néctar à espera.

Pétalas gêmeas de seda breve,
Borboletas bordam o destino
floreando os novos caminhos.

Seu vôo flui como leve sorriso
e volteia na melodia da brisa,
são as garatujas dos meninos.

São como silêncio em movimento,
de quem escuta o mel das flores,
as borboletas do meu carinho.

Alvaro Bastos

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

O Beijo

O BEIJO 

O beijo que te mandei
e que fez curva no céu azul
era feito de nuvem e de mar.

Nele viajavam gotas rubras
de morangos que roubei e
das rosas que deixei em sua casa.

O som que o beijo levava
era dos pardais jovens que
você criava a pão de leite na janela.

E a maciez era da barriguinha
do gatinho que saiu do banho e
está quente na palma de sua mão.

Alvaro Bastos 

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Teia prateada


Às vezes, quando estou só,
voltam à lembrança trechos
das conversas que tivemos
sobre assuntos que na hora
pareciam tolos, mas que hoje
dão sentido a tudo que vivo.
Éramos um só nas conversas,
a mesma alma procurando
uma saída para o mistério
de estarmos vivos e amando.
Palavras ligavam emoções,
iam de um coração a outro,
tecendo uma teia prateada
que me protegia da solidão.


Alvaro Bastos

sábado, 18 de setembro de 2010

Canção da chuva


Lembra do dia em que dividimos
uma capa e um guarda-chuva?
Nós dois molhados, as roupas
grudadas no corpo, e abraçados?
Um encontro marcado com a chuva
e com o amor. Nem sabia o seu nome,
mas conhecia a grandeza do seu sorriso.
Senti seu braço apertando minha cintura,
afaguei seus ombros, afastei os cabelos
do seu belo rosto e roubei um beijo.
Nem sabia o seu nome, mas disse com
toda a certeza do mundo: "eu te amo!


Alvaro Bastos

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Cantiga de passarinho


Desde que te conheci
dei para sonhar
com ilhas desertas e
estradas que sigam
o esplendor do sol.
Quero proteger este
amor com o silêncio
da lua e das estrelas,
adormecer seu perfume
no aroma das flores e
ouvir sua voz murmurar
cantigas de passarinhos.
Nosso amor vai durar
enquanto houver versos
e o mar chegar à praia
em sorrisos de espuma.

Alvaro Bastos

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Dama da Noite


Damas da noite
Meu caminho é o
das damas da noite,
das orquídeas no
alto das árvores,
junto a muros de pedra
no silêncio das
noites estreladas, e
das fachadas de 
azulejo de casas
onde o amor
gostaria de morar.

Alvaro Bastos