A emoção é como um pássaro,
quando se prende já não canta
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sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Ciume

Tela de George Dunlop Leslie
O Inverno açoita lá fora.
É hora de acender o lume
e te dar meu colo, como de costume.
Deita teu sonho e enche tua taça
porque a noite cansa, a estrela passa
e a lua se apaga, morta de ciúme.

Flora Figueiredo

Ficamos assim

Tela de An He

Ficamos assim:
você joga as queixas no telhado, 
eu ponho as manias de lado,
você lava a escadaria, eu rego o jardim.
Podemos varrer juntos as nódoas secas
aderentes ao passado.
Se você se habilita, eu me disponho, 
num desafio à desdita.
Você acende a luz, eu desempeno o sonho,
enquanto você ensaia o passo, eu troco a fita.
Na mesa torta, a toalha colorida.
O resto é fácil:
basta mandar flores ao futuro,
derrubar o muro e acreditar na vida.

Flora Figueiredo

sábado, 16 de abril de 2011

Inevitável

Se não fosse a beleza,
seria a graça;
se não fosse a graça,
seria a doçura,
quem sabe? - a simpatia,
ou até, talvez, - quem diria!
apenas a risada.


Mas mesmo que não fosse
nada, ainda assim, seria.

FLORA FIGUEIREDO

Como nascem as manhãs

O fundo dos olhos da noite
guarda silêncios.
Esconde na retina
a menina que corre descalça em campo aberto.
Pálpebras cerradas, a noite emudece.
A menina com medo
faz um furo no escuro com a ponta do dedo.
Cai um pingo de luz.
Amanhece. 

Flora Figueiredo

Se eu tivesse dedos de fada

Tela de Dianne Leonard

"Se eu tivesse dedos de fada,
Bordaria estrelas no jardim...
Que fossem macias e estofadas,
Para que, descalço, você andasse sobre elas,
Como quem pisa em canteiros de cetim.

Se eu tivesse dedos de fada, 
Desenharia flores pelo teto,
Que fossem azuis e perfumadas,
Para que os anjos, devidamente seduzidos, 
Dissessem Amém aos seus sonhos preferidos. 

Se eu tivesse dedos de fada, 
Rabiscaria acordes nos espaços,
Que fossem quentes e excitantes,
Para que você desdenhasse do cansaço,
A cada vacilo no seu chão de caminhante.

Mas, por eu não ter dedos de fada, 
Vou tentar modelar como um poeta,
A palavra correta e o peito ardente. 
Para que você descubra finalmente 
Que sou sua poesia predileta. "

FLORA FIGUEIREDO


sexta-feira, 25 de março de 2011

De mãos dadas com minha infância

Tela de James Zabusa Shannon
Eu te pressinto correndo ao meu lado
e te admiro.
Gosto de teu sorriso sem conflito,
tua trança
que balança frouxa contra o vento.
Acostumei-me a te levar comigo
pelos meus sucessos
e nos contratempos.
Eu me desculpo pelos meus excessos.
Há espaço pra nós duas,
suficiente
para poder te manter irreverente,
apoiada na minha metade equilibrada.
Assim me encosto
na textura sem rugas de teu rosto.
Se houver um quase nada
de divergência,
é melhor prevalecer a tua inconseqüência,
que é o nosso lado mais sadio.
Se por acaso houver um desafio,
há de vencer-me a ingenuidade
que evaporou no tempo,
que descorou nos tons da meia-idade.
Mas, quando um dia confrontarmos
nossas diferenças,
quero que se sobreponha
por sobre minha face mais tristonha
a tua liberdade mais traquina.
Eu te dou a mão num gesto de ternura,
porque te quero sábia,
porque me quero pura.
Meio mulher madura,
meio menina.

Flora Figueiredo

domingo, 17 de outubro de 2010

Expectativas

O vento anda ficando mentiroso.
Prometeu trazer você, não trouxe.
Ficou de dizer o porquê, não disse.
Esperou que eu me distraísse,
passou depressa, rumo ao horizonte.
Já não tem importância
que cometa outra vez,
um ato de inconstância..
Aprendi a esperar...
Se ventos são capazes de levar embora,
a qualquer hora, também,
são capazes de fazer voltar.


Flora Figueiredo

Como nascem as manhãs


 O fundo dos olhos da noite
guarda silêncios.
Esconde na retina
a menina que corre descalça em campo aberto.
Pálpebras cerradas, a noite emudece.
A menina com medo
faz um furo no escuro com a ponta do dedo.
Cai um pingo de luz.
Amanhece.

Flora Figueiredo 

O Paraiso


Assopre o pensamento triste, 
Deixe escorrer a última lágrima, conte até vinte. 
Abra então a janela,
aquela que dá para o vôo dos pardais, 
Procure a luz que pisca lá na frente
(evite as sombras que ficaram lá para trás). 
Ao encontrá-la, coloque-a dentro do peito, 
De tal jeito, que possa ser notada do lado de fora; 
Acrescente agora uma pitada de poesia, 
Do tipo que passa por nós todos os dias,
e nem sequer consegue ser notada; 
Aumente o brilho, com toda a intensidade
de que um sorriso é capaz. 
A felicidade é o seu limite, 
E o paraíso é você mesma quem faz. 

Flora Figueiredo

Se eu tivesse

Se eu tivesse dedos de fada,
Bordaria estrelas no jardim...
Que fossem macias e estofadas,
Para que, descalço, você andasse sobre elas,
Como quem pisa em canteiros de cetim.


Se eu tivesse dedos de fada,
Desenharia flores pelo teto,
Que fossem azuis e perfumadas,
Para que os anjos, devidamente seduzidos,
Dissessem Amém aos seus sonhos preferidos...

Flora Figueiredo.