A emoção é como um pássaro,
quando se prende já não canta

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

No silêncio dos olhos

Pierre Bonnard
Em que língua se diz, em que nação,
Em que outra humanidade se aprendeu
A palavra que ordene a confusão
Que neste remoinho se teceu?
Que murmúrio de vento, que dourados
Cantos de ave pousada em altos ramos
Dirão, em som, as coisas que, calados,
No silêncio dos olhos confessamos?

José Saramago

Aqui a pedra cai

Tela de Yuri Klapov

 Aqui a pedra cai com outro som
Porque a água é mais densa, porque o fundo
Tem assento e firmeza sobre os arcos
Da fornalha da terra.
Aqui reflete o sol, e tange à superfície
Uma ruiva canção que o vento espalha.
Nus, na margem, acendemos convulsos
A fogueira mais alta.
Nascem aves no céu, os peixes brilham,
Toda a sombra se foi, que mais nos falta?

José Saramago

Amo as açucenas

Amo as açucenas na branquíssima
vertigem do princípio do mundo.
Ninguém pode amá-las assim
nas madrugadas de linho e de nácar.
Ninguém subiu as vertentes da colina
mais íngreme com um vestido de noiva
amarrado ao corpo.
O abandono recortado no ar.
Os desejos entorpecidos na alvura dos seios.
Os guizos das cabras reclamando o cio.
A cera das colmeias na greta dos lábios.
O fascínio da luz a incidir nas hastes mais altas.

Graça Pires

Chá para as borboletas



Tela de Laura Knight

Janela - espelho meu.
Fragrância de almíscar selvagem
me violenta.
Menino com aura violeta.
Jovem com juba desgrenhada.
Velocidade lenta.

Garganta do poço este túnel
cinza, onde trafego dias.
Penso na infância, sombra
dos eucaliptos, recanto secreto

onde eu servia chá às borboletas.

Bárbara Lia

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Estações

Tela de Vladimir Mukhin
Aprendi os cheiros
Do alecrim e da hera
E ao azul do céu
Chamei Primavera.

Encontrei um fruto
Na concha da mão
E à sede da água
Dei um nome: Verão.

Descobri o sol com olhos de sono,
À tristeza das folhas dei o nome de Outono
Aprendi os modos do bico mais terno:
Um cão de peluche
Com o frio do Inverno.

Juntei as estações
Com pés de magia
E à soma das quatro
Chamei poesia.

José Jorge Letria

Deus sorrindo na varanda


.
O quintal de Deus é o céu.
Um paraíso em uma ilha.
Alcançaremos quando formos náufragos.
.
Aguaçal encoberto de dor,
nascituro rompendo em harmonia a eternidade
.
- Deus sorrindo na varanda

Bárbara Lia

Serena

Richard Johnson
Essa ternura grave
que me ensina a sofrer
em silêncio, na suavi-
dade do entardecer,
menos que pluma de ave
pesa sobre meu ser.

E só assim, na levi-
tação da hora alta e fria,
porque a noite me leve,
sorvo, pura, a alegria,
que outrora, por mais breve,
de emoção me feria.

Henriqueta Lisboa